Crise envolvendo bancos, fragilidade na saúde pública e perda de aliados na Câmara Legislativa colocam em dúvida a força da vice-governadora, enquanto cenário político lembra a disputa histórica de 2006 no Distrito Federal.
A disputa pelo Governo do Distrito Federal em 2026 começa a ganhar contornos cada vez mais incertos. Apesar de aparecer em posição momentaneamente favorável nas projeções eleitorais, a vice-governadora Celina Leão enfrenta um ambiente político marcado por desgaste administrativo, crises recentes, sinais de fragilidade dentro da própria base governista e o mais complicado neste momento que é a sombra do ex-governador e pré-candidato ao governo, José Roberto Arruda que aparece bem avaliado, ampliando a vantagem sobre Celina a cada pesquisa.
Nos bastidores da política local, cresce a avaliação de que a força eleitoral atribuída hoje à vice-governadora depende, em grande parte, da ausência do ex-governador José Roberto Arruda na disputa pelo Palácio do Buriti.
Arruda tenta na justiça local, reverter a decisão do TJDFT que manteve a sua inegibilipdade. Todavia, o ex-governador se baseia na nova Lei da Ficha Limpa que o mantém vivo na disputa. Na avaliação, mantendo o atual cenário, com Arruda no páreo, existe o risco iminente de uma derrota de Celina ainda no primeiro turno.
Entre os fatores que ampliam a desconfiança sobre a candidatura governista estão os episódios recentes envolvendo o sistema financeiro ligado ao Distrito Federal, especialmente as polêmicas relacionadas a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília.
O episódio virou discussão nacional após o envolvimento do banqueiro Daniel Vorcaro, setores da política, ministros do STF e o próprio governador Ibaneis Rocha no processo de combra do banco, ampliando críticas de setores políticos e alimentando questionamentos sobre a condução de decisões financeiras ligadas ao governo local.
Outro ponto sensível tem sido a situação da rede pública de saúde do Distrito Federal. Filas para consultas, dificuldades de acesso a exames especializados e reclamações frequentes sobre a estrutura hospitalar passaram a ser exploradas politicamente por adversários do governo. Se não bastasse tudo isto, ainda se avisinha uma possível greve dos professores que realizarão assembleia no próximo dia 18. Caso isso aconteça, a crise se instala de vez no governo em pleno ano eleitoral e dificilmente será sanada até as eleições.
Em períodos pré-eleitorais, problemas na saúde, educação e segurança costumam ter forte impacto na avaliação popular das gestões públicas, fator que pode pesar diretamente na disputa de 2026.
Além das dificuldades administrativas, o governo também enfrenta sinais de desgaste político dentro da Câmara Legislativa do Distrito Federal e a base começa a se fragmentar.
Nos últimos dias, três deputados distritais que integravam a base governista passaram a se afastar do grupo político do governo: Rogério Morro da Cruz, Thiago Manzoni, do Partido Liberal, e João Cardoso, do Avante.
Rogério Morro da Cruz deixou a base alegando retaliação após votar contra o emprestimos de R$ 6bi para salvar o BRB, dando como garantia imoveis do GDF, entre os quais, áreas de preservação Ambiental, além do Centro Administrativo localizado em Taguatinga. Thiago Manzoni e João Cardoso também se afastaram da base seguindo os mesmos argumentos.
A saída desses parlamentares é vista como um indicativo de fragilidade política justamente no momento em que o governo precisaria ampliar alianças para sustentar um projeto eleitoral majoritário.
Uma sombra chamada Arruda
Foto: Reprodução
Enquanto o governo enfrenta esse desgaste, permanece no centro do debate a situação jurídica do ex-governador José Roberto Arruda, que utiliza da nova interpretação da Lei da Ficha Limpa para sustentar sua pré-candidatura. Sendo a lei interpretada a risca, Arruda dificilmente deixará de concorrer ao GDF.
Arruda mantém forte recall eleitoral no Distrito Federal e continua sendo considerado um nome capaz de reorganizar o campo conservador, sendo elogioado na maioria do campo político, além de aprovação junto ao eleitorado brasiliense. A de ser considerar que Arruda está nas ruas há um bom tempo, visitando cidades, participando, a convite, de reuniões e, como ele mesmo afirma, "reencontrando amigos", roteiro que lembra muito 2006.
Ao analisar o atual cenário, existem semelhanças com um episódio marcante da política do Distrito Federal. Em 2006, o então governador Joaquim Roriz deixou o cargo para disputar o Senado Federal, abrindo espaço para que sua vice, Maria de Lourdes Abadia, assumisse o governo e tentasse a reeleição.
Naquele momento, Abadia chegou ao processo eleitoral com a máquina administrativa nas mãos, mas acabou derrotada justamente por José Roberto Arruda, que venceu a eleição, no primeiro turno com 50,38% dos vótos válidos, deixando abadia com apenas 23,97, e assumiu o comando do governo do Distrito Federal.
Quase duas décadas depois, o cenário político parece ensaiar uma repetição histórica. Com a saída do atual governador para disputar uma vaga no Senado Federal, Celina Leão, ao que tudo indica, assumirá o goveno em breve e disputará a reeleição no cargo.
No entanto, Arruda superando os obstáculos jurídicos e entrar de vez na disputa, o embate poderá se repetir, novamente colocando frente a frente o grupo que ocupa o governo e o ex-governador que já protagonizou uma das viradas eleitorais mais marcantes da história política do Distrito Federal.
Diante desse contexto, a eleição de 2026 no DF, apesar de marcada por incertezas, mostra que o governo está mais em oscilação do que a base que está sendo montada pelo ex-governador José Roberto Arruda. E, assim como em 2006, o resultado poderá depender menos das projeções atuais e mais de como o tabuleiro político estará configurado quando a campanha realmente começar.
